sexta-feira, 18 de maio de 2012

O Velhaco



I -
Era preciso parar
privou-se das palavras
era uma entrevista
sem que devesse ouvir.

Em páginas
mal lidas
era falsete dos sons
luzes opacas...
e outra letra em rabiscos
soa música, sem rock
ouvia valsa
salsa
dançava feito mudo,
Em Outras palavras:
Arbusto que deixou de regar
Rasgou através das folhas.



Saiu à caminhar.


II -

Bem-vindo
dizia.
Não via nem ouvia,
confirmava no sorriso aparente.
Aparentava.

Aguares que soam
Frio que atordoa
Livros sem orquestra,
E dança,

refaziam o pleno
em silêncio.

III -

Desatou:


Espero o vazio
Pelo siso que me aproximei,
Estou por uma sensação de caos
que me organize.

Até quando?
Respondia o sujeito que debaixo de chuva parecia dar braçadas para nadar.

Até que o caos chegue ao cume.

Não é muito tempo?
Dando pulos que para um velho não veria tantas vezes, respondeu com outra pergunta.

Refere-se ao tempo que já passou? Ou...
Estou preso em celas de vidro,
aparente.
E quando me transformo
é sem que sirva.


O sujeito perguntava e durante as respostas
Jogava-se de peito, deslizando sobre a mesma poça;

Quando percebi que estava jogando meu eco
a este velho
do peito ensanguentado

e o senhor, o que faz?

O velho olhou sorrindo, e jogou-se novamente.
Sugere algo? Disse pulando com a boca floreando a infância preservada.

Depois de vê-lo fazer mais algumas vezes, que não pude contar,
Pois o olhava com reminiscência.

IV-

Vi Serena passando pela vitrine

Cansado do velho entrei sem que ela visse e fiquei ao canto do bar.
Serena avistou-me, aproximou-se
Olhando à caderneta que anotaria o pedido


-O que vai querer?

-Não sabia que trabalhava aqui.

-Sou recém-contratada. Está todo molhado, tire o casaco ao menos.

-Conhece aquele velho? Perguntei apontando-o.

Desde que comecei, sempre o vejo pulando no chão e cantando.
O que vai querer? Repetiu, Voltando a cara para caderneta.

Pedi-lhe uma folha.


"Sussurro para que não assuste:
o albatroz criado,
Desperta
Reaparece
Quando as paredes esmagam-me.

Sussurro um susto:
sons de clamor
desabo até o gosto amargo
tornar-se estático.

Repito-me quando em desespero.
Anseio reescrever-me
em linhas
que de ao caos
outras buscas
e aparência"

Pedi qualquer bebida. Permaneci olhando o velho. E quando olhava para Serena eu estava sendo observado. Ela me fez algumas perguntas, mas decidi ficar em silêncio.


Bebi qualquer coisa que embriagasse,
sem gosto,
com o pouso
desgraçado;
                      a graça e
um convite
          com o numero anotado ao guardanapo,

______--------__--_-----__---___----__--___


Quando virei as costas e cheguei a outra rua
o velho apareceu com um livro.
Ofereceu-me um trago do cigarro
Abriu a parte em que estava marcada:


"surpreenderia com os holofotes em ti?
duvidaria e assim questionaria?
pouco importa qualquer questão
quando os passos estão enlameado

Aliás carrego lama até o pescoço
eu por isso aprendi a nadar
seja qual poça escolher-me

Não perguntarei
com os ouvidos tapados.
Reage a quais solventes?
Descobre sempre ingênuo
e por impulso
se faz distraído
não enxergarás teus movimento
se fizer deles consequência da lama."

Com a cabeça zonzeando
escolhi uma poça
e fiz o mesmo que o velho
                      Não buscava nada. Pulava sem hesitar.
Raspei com o rosto e o peito:
em sangue e cheio de cacos de vidro fincados sob a pele
tornei a seguir pelas ruas.


Serena novamente avistou-me,
dessa vez jogava-me na poça,
lamentava-se acreditando que eu fosse o velho...

Falou sobre existência
e falência,
confundiu os cigarros
e bocejou algumas gargalhadas
Reconheceu-me quando a chamei pelo nome.

Decidimos ir ao mar.

V-

A Água salgada será ótima para tuas feridas.
Serena revelou.
Cambaleando, curvado, à beira d’agua. Era até onde meu equilíbrio levou-me. Caí.

-Não consigo viver um dia após o outro,
Qualquer traço que eu comece estará entregue antes que eu durma,
Depois disso a continuação permite-me somente dar um titulo ao tracejar.

-Está sem vida?
Propôs o pensar
E sem becos não iria além nos pensamentos.

O velhaco interrompeu, com gargalhadas.
-Vocês não podem estar falando a mesma língua.

-Ele está nos seguindo?
-Venho atrás de meu livro.
-Tu me deste, agora quer tê-lo de volta?
                                     
Sem responder olhou-nos
Com a boca arqueando risos e barulhos
Correu com as ondas, pulou-as,
Foi, foi... foi...

Serena tinha um de seus brincos azul
Outro vermelho
Cabelos compridos
E o sorriso era como resposta a qualquer
Questão do instante.

Engasguei com a maré que enchia;
Embriagado, serena levantou-me a cabeça.
E disse que o velho demorava muito tempo.
-Deixe-o, ele voltará.

Serena atirou-se ao mar.

Cobria-me, por não conseguia levantar-me.
Faltava-me o fôlego, a sede saciável,
Empurrava o sal bloqueando-me a garganta.

VI-

A noite clareava, a lua punha-se no mar.
E quando acordei serena estava em meus braços. Levantei
Deixei-a com a cabeça inclinada sobre a areia
Algumas dezenas de pessoas e flashes apontavam para figuras desenhadas na areia,
-Acorde serena, veja quanta gente apareceu enquanto adormecíamos.
Levante-se serena.

Gritei pedidos de ajuda,
Os turistas nem se quer olhavam
A poucos metros.
Um por um
Estrondosas risadas
Deixavam as câmeras postadas ao chão
E corriam ao mar
Pulando e gritando: ondas e sal.
VII –

Um rapaz com o violão às costas
Tentava acordar-me:
Hei, precisa de ajuda?  
- Serena; e o velho; onde estão?
-Encontrei o senhor sozinho, vi que está machucado; quer que eu ligue para emergência.

Não precisa já estou bem
Levantei-me, com a cabeça afundando.
Sentei-me
Encontrei uma folha em que o velho havia deixado
 O rapaz sentou-se e pôs-se a tocar o instrumento.
Com a vista escurecendo novamente, pedi para que o rapaz lesse.
Em alto e bom tom
Começou:
SINUOSO

ESTE PODRE
ISTO QUE FEDE
FORA AS LINHAS QUEBRADAS
UMA
PÓS
OUTRA.

MEU MURO COM MEMORIANDO
ESVAZIA-SE DOS SENTIDOS;
NÃO CONTO MAIS OS PALMOS
ESVAIU-SE O SABOR

NÃO PRECISAVA MATAR O PERSONAGEM
PARA DEIXÁ-LO MORTO
O TEMPO PESA, COMO SE DESSE CONTA
DO RODAR, TARDE DEMAIS.

ISTO NÃO SERIA DESESPERO PARA SUBMISSÃO

CASULO APODRECIDO

OS ANALISTAS BUSCAM SOBREVIDA
PARA PODRIDÃO.

ONDAS

ONDULAM-SE:
O MAU- CHEIRO JÁ ESTÁ SENDO CURADO.

Um comentário:

  1. Talvez o meu preferido até o momento...Texto de tirar o fôlego. Quantas passagens! Uou, muito bom, muito bom.

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